Blog de uma leitora crónica, obsessiva livresca e bibliomaníaca. Os livros que li e as minhas opiniões.

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Terça-feira, 02 de Janeiro de 2007

Na sucessão da morte de Salvador Allende, referida em A Casa dos Espíritos, De Amor e de Sombra, o segundo romance de Isabel Allende, transporta-nos para um país da América Latina que vive sob o jugo de uma ditadura militar encabeçada pelo anónimo ‘o General’, designação que nos conduz imediatamente a Pinochet.
Irene Beltran, uma jornalista proveniente de uma família abastada, e Francisco Leal, um fotógrafo filho de um professor Marxista, são as personagens centrais que se deparam com uma sepultura colectiva, para onde foram despejados os corpos das pessoas torturadas e assassinadas pela polícia, um crime hediondo que os desafia a ir mais longe nas suas investigações, pela busca da verdade, numa nação mergulhada em terror.
À medida que o seu amor cresce à sombra da morte, Irene e Francisco lutam por justiça, conseguindo um protesto público e uma condenação internacional, obrigando as autoridades a autorizar um julgamento e uma condenação.
Porém, a jornalista e o fotógrafo vêem-se obrigados a fugir do país para evitar represálias de um governo enraivecido que não tenciona alterar as suas políticas.
De Amor e de Sombra escrito num estilo jornalístico, é assumidamente político.
As personagens, com pouca ou nenhuma profundidade psicológica, são usadas como meros objectos para servir um fim: divulgar e narrar as atrocidades cometidas no regime de Pinochet. A capacidade da escritora de tornar as suas personagens vívidas e reais fica um pouco aquém neste livro.
Além disso, a história de amor é acessória e torna-se um elemento estranho e artificial em toda a narrativa. Se o objectivo era harmonizar ficção com realidade, a escritora frustrou-o com uma história de amor vaga e descontextualizada.
Este livro não deixa de ser uma experiência magnífica não só pelos eventos reais relatados, mas também pelo mistério com que a escritora prende o leitor às suas palavras, revelando uma vez mais a excelente técnica de narração que possui.
Para uma justa análise deste romance, este não pode ser visto isoladamente, mas como fazendo parte do universo mágico de Allende.
Alexandra Gomes

publicado por xana às 00:01