Blog de uma leitora crónica, obsessiva livresca e bibliomaníaca. Os livros que li e as minhas opiniões.

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Terça-feira, 01 de Maio de 2007
José Rodrigues dos Santos traça-nos um ilustre repertório de factos e acontecimentos relativos à participação portuguesa na 1.ª Guerra Mundial, sob a égide de uma grande paixão em tempo de guerra. Seiscentas páginas de pura homenagem a soldados que, ao lado do oficial do exército português – capitão Afonso Brandão –, lutaram nas trincheiras da Flandres.
A Filha do Capitão faz antever um romance marcadamente descritivo, mas ao contrário d’ O Codex 632, a narrativa articula-se com a descrição de uma forma equilibrada e realista.
O capitão Afonso Brandão é a figura central do romance, filho de gente humilde e nascido nas cercanias de Rio Maior, num meio pobre e rural, que teve a oportunidade que muitos da sua geração e do seu meio não tiveram: estudou para padre, apesar de mais tarde ter sido expulso, seguindo os estudos e preparação para oficial do Exército, carreira que se revelou mais positiva para Afonso do que a da batina.
Enquanto esta personagem nos é apresentada, o leitor vive e respira o Portugal de finais do século XIX e princípios do século XX, desde a ruralidade e pobreza do interior marcadas pela forte influência da religião católica, aos novos acontecimentos que Lisboa vê surgir como o primeiro automóvel, o primeiro cinematógrafo ou, a equipa de futebol que nasceu numa farmácia: o Sport Lisboa e Benfica.
A vida de Afonso Brandão irá mudar radicalmente à luz de um incidente em Saravejo que ganha proporções avassaladoras, tornando-se a ignição para a 1.ª Guerra Mundial.
Em poucas semanas toda a Europa se encontra dividida entre dois blocos beligerantes. Portugal juntar-se-á mais tarde aos chamados Aliados, liderados pela França e Grã-Bretanha, altura em que Afonso Brandão será chamado a participar directamente na acção, integrado no Corpo Expedicionário Português (CEP), enviado para a Flandres por um Governo sequioso de reconhecimento internacional, na sequência da traumatizante revolução republicana.
Paralelamente às vivências de Afonso, José Rodrigues dos Santos dá-nos a conhecer Agnés Chevallier que habita paragens infinitamente mais distantes para os horizontes portugueses: vive uma vida folgada, num lar feliz onde é mimada e onde lhe é dada a oportunidade de estudar medicina na Sorbonne parisiense.
Neste paralelismo estabelecido entre as personagens principais, surge um ‘Portugal profundo que contrasta com a ânsia por novas descobertas na capital lisboeta e que revela uma oposição ainda maior com o glamour vitícola da região de Bordéus, onde a infância da figura feminina decorre na humildade e na graciosidade digna de uma grande heroína, que para além de bela, possui também uma educação refinada pelas viagens à capital francesa’.
‘Dois ambientes distintos propícios a influenciar as duas personagens principais, mas que não contribuem para o afastamento uma da outra. O rol de acontecimentos históricos mistura-se por isso com a ficção romanesca, com a intriga amorosa contida pela graciosidade de um amor quase impossível que tudo suporta em tempos de guerra’.
A paixão surge sob auspícios trágicos de um Pedro e Inês, num cenário de desolação, em que um rude golpe na ofensiva aliada em La Lys, onde se encontrava a Brigada do Alto Minho dirigida por Afonso, irá separar os dois amantes.
‘É um momento anunciado desde o início da obra, pelo que não constitui surpresa. Pode-se dizer que há o antes e o depois. Sendo o primeiro, apesar de ricamente adornado e recheado, um momentum preparatório. Quanto ao depois, será melhor o leitor descobrir por si próprio’.
José Rodrigues dos Santos torna-se menos exaustivo e consequentemente menos aborrecido neste livro comparativamente a O Codex 632.
Os detalhes históricos do país, o ambiente nas trincheiras colocam-nos lado a lado com as personagens, vivendo com elas as mesmas emoções (quase!) trágico-queirosianas, porém um pouco mais rebuscadas e menos coerentes que as do génio português.
Um texto com substância histórica e rica em realismo que nos fazem render à escrita suave, agradável e envolvente deste escritor.
Alexandra Gomes
publicado por xana às 19:16

já ouvi falar muito bem deste livro, estou ansioso por le-lo.
boas leituras
leitor a 8 de Fevereiro de 2008 às 19:58

Como descrever este livro? Não sei se o consigo exprimir. É demasiado avassalador. Acabei de o ler por volta das 4h da manhã, os olhos inundados de lágrimas, o peito pesado com tantas possibilidades que deixaram de o ser...

O que me tocou mesmo, aquilo que me ainda deixa inquieto é saber que esta foi a história de muitos homens mandados para uma guerra sem sentido ( qual é a guerra que tem sentido?) que nada lhes dizia em nome de uma pátria que deles se esqueceu. Chorei mas pelo encontro com a filha (mas já suspeitava não seria o nome do livro a filha do capitão) desenganem-se aqueles que pensem que chorei pela história de amor do soldado português e da bela francesa. A história de amor aqui contada tem o seu quê de interessante, mas aquilo que doi e que faz reflectir são os retratos brutais da linha da frente, da malta portuguesa das trinchas que sofreu todo o tipo de privações e que foi esquecida pelos governates do seu país. Senti revolta no que é ser português, pelos maradas: o Matias, o Velho, o Lingrinhas, o Manápulas, o Beato. Gente humilde, esfarrapada, esfaimada e revoltada por se ver metida num conflito que não é o seu, a suspirar por voltar à sua vida mas sem possibilidade de escapar do inferno da frente para onde foram jogados, sempre desenganados pelas promessas de licença, de serem substituídos por reforços que nunca chegam...

Mas o que tem este livro de apaixonante é que, para além das desgraças e misérias da frente, consegue dar retratos da camaradagem, da amizade e até mesmo de humor entre estes homens, que apesar de ficticios, têm muito de verdadeiro.

Quanto à história de amor... é uma história igual a tantas outras. Agnés é um pormenor na vida de Afonso. Deixamos de ser omnipresentes em relação ao que se passa com ela ficando em segundo plano. Compreendo que foi uma opção do escritor, numa obra literária é impossível açambarcar todas as possibilidades e pontos de vista, mas foi para mim um pouco estranho o corte quase radical com Agnés. Tanto que a sua morte não me comoveu, no fundo da minha mente já estava quase morta, uma personagem secundária dentro de uma história maior.

Afonso Brandão é, no entanto muito humano, está muito perto, quase o podemos sentir e observar, tão real e próxima a sua história se afigura. Deliciei-me verdadeiramente com as suas questões filosóficas que coloca, todas as suas inquietações sobre o porquê da existência e do propósito de Deus. Inquietações que se tornam mais fortes no pós guerra com as feridas invisíveis provocadas pela horripilante experiência.

José Rodrigues dos Santos conseguiu conciliar de forma brilhante o rigor histórico e o lado humano humano. Sem dúvida uma boa história muito bem contada.

joaquim casimiro a 22 de Maio de 2008 às 23:04

Muito obrigada pelos spoilers, senhor "leitor".
Ainda não li o livro e fiquei muito "satisfeita" por ficar a saber de coisas tão importantes... NOT.
Sinceramente..
Carla a 17 de Dezembro de 2013 às 16:34