Blog de uma leitora crónica, obsessiva livresca e bibliomaníaca. Os livros que li e as minhas opiniões.

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Segunda-feira, 01 de Janeiro de 2007

Em 1981, quando Isabel Allende soube que o seu avô se encontrava moribundo, começou a escrever uma carta de despedida para ele. A partir do momento em que as palavras começaram a ser derramadas, nada mais as conteve. Quando finalmente tomou fôlego, Allende deparou-se com 500 páginas manuscritas que se tornaram o seu primeiro romance, A Casa dos Espíritos.
História épica de três gerações da família Trueba e do seu envolvimento na revolução socialista chilena, onde o passado e o presente se entrelaçam para formar uma intriga brilhante de morte, ódio, ira e traição.
Desde a primeira frase, o primeiro virar de página, os leitores entram num mundo encantado de misticismo e magia que entra imediatamente em conflito com a tensão que emana da personagem de Esteban Trueba.
A extensa visão que Isabel Allende revela ter da história chilena do século XX, do caos do governo de Allende, do golpe militar que o destitui e da repressão subsequente, é inteligentemente representada através das provações e atribulações da família Trueba.
Apesar da personagem principal ser Esteban Trueba e todos os eventos girarem em torno dele, são as mulheres da família que efectivamente dominam. Três mulheres marcam toda uma narrativa, profundamente feminina, que combina de forma extraordinária narrações de primeira e terceira pessoas, mantendo-a viva e cativante. Clara, Blanca e Alba – nomes cujo significado intrínseco apontam a Luz como dominante – são mulheres fortes que lutam pelo que acreditam. Criticadas por uma sociedade conservadora pelas suas ideias revolucionárias, encontram sempre meio de ajudar os outros, defendendo secretamente os direitos das mulheres. Estas personagens representam algo mais que feminismo, representam a luta da Mulher e da Sociedade, tipicamente masculina, que permitiu e continua a permitir os direitos das mulheres.
É um facto que este romance se serve de paradoxos - que evoluem através das suas personagens para posições extremistas - para provocar peripécias e emoções, dignas de uma novela. Por vezes, a narrativa peca por excesso de melodrama: as peripécias são intermináveis e os incontáveis amores à primeira vista fazem com que o impacto de determinados eventos e revelações não possa ser devidamente apreciado pelo leitor. Neste aspecto, o romance clama urgentemente por uma alteração de ritmo e por mais introspecção, visto que a intriga se torna redundante.
As personagens, apesar de muito desenvolvidas e com uma profunda carga psicológica, esquivam-se dos estereótipos, mantendo uma ambiguidade que lhes confere características que se coadunam perfeitamente com o realismo mágico com que este livro está impregnado.
Aliás, Allende leva-nos a crer que é uma verdadeira ‘realista mágica’, no entanto muitos dos aspectos mágicos do livro estão esterilmente relacionados com Cem Anos de Solidão de Gabriel Garcia Marquéz: não se verifica a mesma combinação vívida, a união do divino e do profano, o sentido da beleza arruinada que povoa a prosa de Marquéz. Em Allende verifica-se sim, um louvor e uma veneração ao escritor que se transforma numa imitação desajeitada. A voz da escritora é sufocada pela maestria de Marquéz e há demasiado das suas opiniões, descrições, sentimentos e personagens ecoando pelo livro. A estrutura de ambos e o poder descritivo são semelhantes, porém as personagens de Allende estão mais bem exploradas.
O facto da escritora ser sobrinha de Salvador Allende, possuir una técnica de escrita muito apurada, com um forte sentido estético e uma linguagem muito cinematográfica, influencia a escrita e torna-a muito pessoal, transformando-a numa das características marcantes do livro.
Os capítulos finais, baseados sem dúvida alguma, na experiência pessoal de Allende, sobre o golpe militar são os mais brilhantes e emocionantes, reflectindo a dor de toda uma geração de mulheres chilenas. Apenas nestas últimas páginas Allende altera o foco da sua narrativa, tornando-a mais equilibrada e consistente com a sua própria voz.
É o feminismo lírico que torna este romance excepcional, prestando tributo à Mulher chilena, em particular e, a todas as mulheres do mundo, em geral.

Alexandra Gomes

publicado por xana às 00:01

Adorei a critica.
Diana a 7 de Abril de 2010 às 21:21